Esperando o que?
Observava há horas e não conseguia compreender as razões da espera. Que diabos estava fazendo naquele lugar debaixo daquele sol insuportável? A principio pensei em perguntar, mas achei melhor não puxar conversa. Eu havia passado logo cedo para ir ao supermercado e lhe dirigi uma frase de cumprimento, recebi um bom dia de volta. Naquele bairro, era muito comum os vizinhos se cumprimentarem, sempre todos muito amáveis, porém não me recordo de ter visto vizinhos novos. Três horas depois retornava do supermercado, e aquela criatura permanecia parada no mesmo lugar, limitei-me a um boa tarde, pois já passava do meio dia, e segui para casa. Da janela da sala observava aquela figura parada no mesmo lugar. A principio pensei que fosse cego, pois usava óculos escuros e "olhava" fixamente para uma única direção, mas quando o garoto caiu da bicicleta, tentando passar com o sinal aberto, ele ajudou a levantar e por um instante tirou os óculos e enxugou o suor. Pude então vê seus olhos escuros, tinha uma expressão de tristeza muito grande. Depois que ajudou o garoto voltou para o mesmo lugar. Com certeza estaria esperando por alguém que provavelmente não havia chegado ainda. Anoiteceu e a aquela imagem não se modificava.
Nesse dia passei todo o tempo em casa, não havia para onde ir, o que é bastante comum nos meus fins de semana. A televisão e o rádio foram minhas únicas companhias, mas de momento em momento lembrava-me e dava mais uma olhada na janela. “Qual seria a razão para alguém passar o dia inteiro parado no mesmo lugar? Estaria em missão de espionagem? Acho que estou assistindo sessão da tarde demais”.
Coloquei todos os trabalhos em dia, peguei o filme que havia locado e resolvi assistir, mas não conseguia me concentrar, pois na última vez que fui até a cozinha tomar um pouco d’água, olhei novamente pela janela e o quadro era o mesmo.
Já passava das onze horas e o sono estava insuportável. Na noite anterior havia passado na casa de uns amigos numa comemoração de aniversário, aliás, foi um churrasco muito especial, pena que não foram todos do escritório, principalmente o pessoal de apoio que são muito divertidos. Nós conversamos até as três da manhã e o sono estava “para lá de depois”.
Fui ao banheiro tomar um banho e me prepara para dormir e mais uma vez olhei pela janela, nada havia mudado. Diante desse quadro imutável me questionei mais uma vez o que estava acontecendo.
Na manhã seguinte não o vi mais, talvez a pessoa por quem esperava tivesse chegado, ou talvez tenha cansado de esperar. Não sei porque estou me preocupando com isso, não o conhecia, nem mesmo sei como se chama, mas seus olhos negros e tristes ficaram na minha lembrança, será que um dia voltarei a vê-lo?
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