O que ele não sabia é que um presente pode ser uma coisa e pode ser outra. Na verdade, nem eu sabia o que poderia ser um presente para um ex-interno de um hospital. Falei com a Rafa, ela me deu 20 paus. Pedi uma roupa limpa, toalha e fui tomar banho. O Z demorou demais no banheiro, de modo que tive que bater na porta pra ele sair mais rápido. Tomei banho. Enquanto eu estava sob aquele jato de água gelada, pensava no que poderia dar de presente pro Bio. Não sei o que me levou a dizer que ele seria presenteado. Não sei, mas sentia que deveria dar alguma coisa que realmente importasse pra mim e pra ele. Durante o banho pensei em palavras novas a serem inventadas e pensei o quanto era bom o sentimento de liberdade. Logo me veio a expressão: alma que voa. Ao chegar na sala novamente, o vi sentado no sofá com a Rafa e o Z, acho que estavam falando de mim, não sei, mas se calaram quando eu apareci. Não quis perguntar nada e nem entender aquilo, apenas olhei pro Bio e disse: - alma que voa. E ele ficou sem entender nada. Saí.
As ruas eram estranhas. Nem parecia que eu estava morando em São Paulo há 11 anos. Eu não tinha mais referências de bairros, nada. Tudo que eu me lembrava referia-se ao Recife e à minha infância. Lembrava do parque 13 de Maio, do parque da Jaqueira e do Recife Antigo aos domingos. Fui até o ponto de ônibus e perguntei como fazia pra chegar na Paulista e um senhor me indicou a linha. Durante todo aquele trajeto eu me perguntava se deveria voltar ao Recife, o que eu daria de presente ao Bio e como eu iria reconstruir a minha vida ao lado daqueles desconhecidos. Eu não queria voltar a ser quem eu era no sentido de querer procurar meus antigos amigos, minha companhia de balé, meus alunos, minha mãe no Recife. Nada daquilo me pertencia mais. Eu agora era um começo, e um começo sem voltas.
De volta à casa da Rafa depois de andar a tarde toda pelo centro (e até acabei dando uma passadinha no Ibirapuera pra caminhar e dançar ao ar livre) chamei o Bio até a cozinha e entreguei-lhe a sacolinha com meus presentes.
- Isso é tudo que consegui comprar e também é tudo que significa pra nós dois quase as mesmas coisas.
- Obrigado. (abrindo o saco)
- O que me diz? Vamos escrever muitas coisas juntos? Palavras, haikais, crônicas, poesias?
- Cara, que legal! Valeu! Tava mesmo precisando de um caderno em branco.
- De nada.
Comprei um caderno todo em branco para ele e outro para mim com dois lápis e duas borrachas. Agora nós poderíamos escrever e desenhar tudo o que quiséssemos.
Começava ali alguma coisa, gosto de chamar de gota de cumplicidade. Amizade pra quem quiser.
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