Acordei com a cabeça girando naquele dia. Senti que alguma coisa estranha e nova aconteceria, estava por vir, mas não sabia o quê. As coisas naquele lugar caminhavam na mais perfeita ordem, mas sabe-se lá qual era a ordem daquilo. Nunca entendi bem o porquê estava ali. Gostava de pensar que era como uma colônia de férias, um acampamento por tempo indeterminado, mas eu bem sabia que não era. Tinha saudade dos palcos, das piruetas, dos saltos, das saias, das malhas cor-de-rosa e do cabelinho todo preso num coque no alto da cabeça. Tinha saudade de um monte de gente, de coisas e cheiros que ficaram para trás desde que fui internada naquele hospital psiquiátrico.
Segundo dizem, tive aquele surto depois que não fui chamada para integrar o balé da Rússia, isso mexeu demais comigo. Fiquei de um jeito que não conseguia mais fazer as coisas normalmente, além de não querer mais dançar. Estranho, afinal, a Bailarina nunca pára de rodopiar, seja ao som dos bandolins ou não. Mas eu parei. Chamo-me Milena, mas quase ninguém me chamava assim, desde os tempos da escola de dança que me chamavam de ‘A Bailarina’. Graciosa e sorridente, sempre disposta a fazer o que fosse preciso e também o que não fosse. Sagaz e audaz, esses dois adjetivos me definiam bem.
Desde que fui internada na “colônia de férias”, há exatos 7 meses, sentia-me confortável, porém só. Nunca quis fazer amizade com ninguém por lá e depois de uns dois meses de indisposição voltei a dançar pelos corredores do hospital, como que num palco. Sem pudores e sem vergonhas, apenas dançava coreografias imaginadas na hora ou repetia aquelas que já havia dançado outrora. Ouvia os comentários das pessoas pelos corredores, mas fingia que não ouvia nada. Sempre os mesmos: “Olha lá, a bailarina dançando mais uma vez. Será que ela é doida de verdade?” ou ainda “Essa menina não parou de dançar o dia todo, ela vai acabar desmaiando.” Nunca dei ouvidos àqueles caretas.
Mas, aquele dia estava estranho... Senti no clima, no olhar de alguns delinqüentes insanos que aquilo ali estava confuso. Passei a manhã inteira quieta, imaginando como seria retomar a vida depois que deixasse a “colônia” e como seria voltar a dançar. Será que eu voltaria a dançar? Será que eu seria chamada novamente para integrar outro balé tão importante? Eram tantas dúvidas e questões na minha cabecinha que eu preferia só observar aquela cena. Nada aconteceu. Até que um louco esmurrou um enfermeiro e tudo que eu estava sentindo se materializou ali na minha frente. Corri. Até o meu quarto e tratei de calçar as sandálias e sair correndo até o pátio novamente. Podia ser uma rebelião, podia ser uma tentativa de homicídio, eu tinha que saber. Tudo foi muito rápido, eles estavam mesmo com tudo bem planejado. Assisti tudo de camarote e quando gritaram que era o dia da esbórnia tratei de sair dali. Mas saí calma e andante. Sem euforias. Não queria parecer mais uma louca no meio daqueles tantos que corriam pela rua como ex-reféns. Eu fui tranqüila e calada. Quando avistei aqueles que eu julguei serem os idealizadores do movimento libertador, segui-os de maneira sutil e sem que me vissem. E quando entraram naquela casa, tive a plena certeza de que deveria tocar naquela porta. E o fiz.
2 comentários:
To be continued esta historia O estranho no ninho (Flavio)
Que tal uma mini-série? hein?
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